quarta-feira, 22 de outubro de 2008

lendo alguns formatinhos

Um dos problemas principais dos quadrinhos, ou pelo menos das histórias em quadrinhos que a maioria tem acesso, publicados pelas grandes editoras ocidentais de quadrinhos (Marvel, DC, Disney, etc.) é que eles se baseiam em estereótipos para agradar um "leitor médio" e isso termina dando um gosto de monocultura aos produtos dessa cultura de massa....

Assim, acaba gerando em algumas pessoas uma visão generalizada de que o quadrinho é ruim, apenas porque não foram apresentadas ao melhor que o meio pode oferecer.

Esse tema vem aparece porque recentemente encontrei um texto do grande Hector German Oesterheld, em defesa dos quadrinhos...

http://thecribsheet-isabelinho.blogspot.com/2008/10/hectr-germn-oesterhelds-and-others.html
aliás, excelente blog do Isabelinho...

e também comprei uma leva de revistas formatinho, basicamente da Marvel e DC, uma overdose que me deu certo enjôo dessa visão de mundo... certo, os quadrinhos de super-herói, quando bem feitos, podem ser maravilhosos! Não me deixa mentir o recentíssimo All Star Superman de Grant Morrison & Frank Quitely. Acontece que a maior parte das vezes, os roteiros dessas super-HQs se baseiam em confrontos físicos entre superseres, com algumas tramas relacionadas às identidades secretas (em geral, a profundidade dos diálogos está abaixo do nível dos adolescentes ou parece coisa de novela de TV).

Cada vez mais sei que a obra de arte é boa quando consegue ultrapassar os estereótipos e alcançar um tom mais universal. Isso vale para filmes, discos, livros, quadrinhos, para tudo... Pode parecer datada a conversa de que os quadrinhos são uma mídia essencialmente masculina, mas isso ainda poderia explicar muito da falta de identificação das mulheres e de muitos homens com os quadrinhos de super-heróis - há destaque demais para as batalhas e os crimes, pouco espaço para mostrar mães criando seus filhos... ou ainda mais simplesmente, falta esses homens-roteiristas-desenhistas retratarem seu universo com mais sinceridade, menos fantasia adolescente... (mas deve-se dizer, algumas vezes a grandeza de uma obra pode vir do fato dela expressar de maneira visceral uma visão masculinamente raivosa de mundo - a música do Nirvana ou Black Flag pode expressar bem isso. Na real cada caso é um caso.)

Grande parte das limitações vem do pressuposto de se lidar com um público infanto-juvenil, o que é cada vez mais distante da realidade - o consumidor médio de quadrinhos vem envelhecendo.

Mas vamos a exemplos práticos, algumas revistas recém-adquiridas. Vai ser tipo uma resenha bem curta voltando a alguns dos temas discutidos acima.

Força PSI 7 (Ed. Abril)


Essa é uma das revistas que mais tomam poeira nos sebos. Fazia parte de um tal "Novo Universo", uma jogada mal sucedida da Marvel Comics durante os anos 80. Ainda não terminei de ler, aliás, mas li a HQ do Estigma, que foi a razão de comprá-la: pois alguns anos depois, John Byrne fez um interessante arco de histórias com esse personagem.

A vida pessoal do personagem está em primeiro plano. Há alguma ação, terroristas aparecem, o Estigma vai atacar uma base militar na Líbia (interessante: apesar disso, a discussão política é inexistente), mas o que eu gostei foi de ver o personagem principal lidando com as duas mulheres da sua vida (ainda aparece uma terceira, para vocês terem uma idéia da rotatividade do cara). Um dos conselhos que ele recebe "Olhe, esqueça a Barb e a Deb e trate de aproveitar a vida! Saia com outras garotas!". O roteiro é de Jim Shooter, com desenhos de John Romita Jr. e arte-final de Al Williamson.

X-MEN versus VINGADORES (Ed. Abril)


Essa me fez lembrar o quanto era bom o Marc Silvestri, antes de querer imitar Jim Lee. Eu já tive esse gibi e comprei de novo por um saudosismo besta. Realmente não é grandes coisas não, apesar do Silvestri. Porque acho que 60% é só luta... e tem uma ridícula super-equipe russa. A parte de interesse humano vem através de Magneto, clássico vilão, que na época tinha se aliado aos X-men. Um tribunal internacional está prestes a julgá-lo por seus crimes, e ele tem a possibilidade de usar um dispositivo para remover telepaticamente o preconceito contra os mutantes - e enfrenta o dilema moral de usar ou não usar esse recurso. O roteiro é de Roger Stern e Tom DeFalco, desenhos de Marc Silvestri e Keith Polard, a arte-final é de Josef Rubinstein.

DREADSTAR 1 (Ed. Globo)

Ainda não li a HQ principal, li uma história curta do Aldo Gorney & Farquat. É uma HQzinha bem despretensiosa e apenas mediana, assinada por Bernie Wrightson. Gosto dela porque o personagem é um sábio que resolve problemas com a inteligência... e também porque adoro estórias curtas e despretensiosas. Esse Bernie Wrightson é estranho. Como ele consegue fazer coisas tão legais - como esse trabalho humorístico com o Aldo Gorney, ou a primeira HQ do Monstro do Pântano, ou seus antigos trabalhos de terror, em geral - e depois fazer coisas abomináveis como Batman - O Messias ?

DC 2000 4 e 16 (Ed. Abril)

Comprei basicamente pelo Homem-Animal de Grant Morrison. Tem muita gente que idolatra o trabalho de Morrison nessa série. Não acho que seja tão bom assim, embora ainda não tenha lido tudo. Essa HQ do n.4, eu já tinha lido há muito tempo - é outra que eu comprei um pouco por saudosismo. Tem um encontro com o Super-homem que de alguma forma me marcou muito - eu lembro de uma frase sempre, "Engraçado como as coisas se encaixam". Na verdade, com os desenhos de Chas Truog, as coisas ficam meio capengas. Eu estava refletindo - deviam ter chamado para esta série alguém que desenhasse bem animais. Ou alguém que simplesmente desenhasse bem! Truog simplesmente sumiu depois disso - eu me pergunto o que terá acontecido a ele. O estilo fica parecendo meio Turma de Mônica às vezes - quero dizer, é gritante como parece inadequadamente artificial, comparando com o roteiro... será que foi o Morrison mesmo que chamou esse cara pra desenhar? Pode ter sido intencional, considerando o final metalinguístico da série.

No número 16, temos a história de origem do Homem-Animal, um pouco no estilo do que Alan Moore fez com o Monstro do Pântano (quando Abby tem um sonho que reproduz a primeira história de Len Wein e Bernie Wrightson, 1971). É uma estória dentro da estória, sendo que no caso do Homem-Animal é um remake feito por Morrison e Tom Grummett.

Digno de nota: tem uma história simpática do Sr. Milagre também nesta edição, por J. M. DeMatteis (roteiro) e Ian Gibson (arte). É interessante tanto pelo estilo bem-humorado com que trata o Pai Celestial e pela arte de Gibson, que colaborou com Alan Moore nos primórdios, em Halo Jones. Curiosamente, há uma outra HQ de DeMatteis na revista, do Sr. Destino, que não consegui ler até o final (o desenhista Shawn McManus fez um trabalho ruim).


Por hoje é só, depois tento postar outras "fast críticas" dessas se puder...



2 comentários:

Paulo Floro disse...

Eu comprei essas DC também por causa do Homem Animal. Acabei descobrindo que a Pixel irá lançar a versão encadernada, naquele formato nojento de Os Invisíveis, mas ao menos com papel bom e boa edição.

tem mt coisa legal em formatinho, apesar de ter pego ojeriza do formato uns meses atrás

gr disse...

Pois é... o formatinho da Abril pelo menos era simpático, pequenininho, tinha seu valor afetivo....

Esse formato que a Pixel anda publicando as coisas é realmente horrível.